sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Anaeteth

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Minha vida acaba quando atendi aquele maldito telefone, eu desci as escadas com o cabelo desarrumado às 3 da manhã sem nem ao menos entender o que estava acontecendo naquele momento, ele não havia me informado de absolutamente nada.
Acabei por me mudar para um lugar que me jogara no abismo, localizado literalmente no meio do nada, já que ao redor do vilarejo só existem quilômetros de floresta ressecada e desprovida de vida.
Meu vizinho, que me ligara a poucos instantes, era pai do jovem Patrick, que constantemente desaparecia, sem deixar pistas. Naquela mesma noite o pai de Patrick Steinhoff me pedira que o acompanhasses pela floresta para ajudar-lhe na busca de seu filho, já que o mesmo tivera um pesadelo terrível envolvendo o seu filho e um grupo que o preocupava muito.
Todos os moradores do local mantinham suas janelas fechadas durante a noite, assim como todas as portas trancadas, menos eu. Voltavam sempre para suas casas após as 10 horas da noite, e levavam os animais para dentro de seus respectivos estabelecimentos, afirmando temerosos acontecer coisas inexplicavelmente perturbadoras.  Eles disseram que colocavam os animais para dentro porque se não o fizessem um ou dois deles morreriam de maneira terrível, e porque sempre que isso ocorre nunca é encontrado nenhum sangue dentro do anima, e que todas as vezes sempre ocorre entre as 10 horas da noite e 3 da madrugada.
Para todos no vilarejo a floresta possui vida própria, e aqueles
que lá permaneceram por alguns instantes durante este período voltaram em profundos estados de loucura, chorando em momentos indefinidos e com olhares vazios, de maneira que assustaria até o mais terrível dos homens.  Mas naquele momento eu não sabia de nada, e voltando àquela maldita noite: Eu me senti muito mal assim que saí de casa, com aquela brisa gélida que carregava um cheiro indescritível de terra úmida, e com aquele céu cor verde-escuro absolutamente assustador a um ponto de me fazer acreditar na possibilidade do mesmo ter sugado as cores daquela floresta morta infernal.
Na medida em que entrávamos na floresta o cheiro aumentava e de alguma forma a distância de nós dois e o vilarejo também, de maneira que dava a impressão de que quando olhávamos para trás estivéssemos cada vez mais afastados, e que estivesse cada vez mais escuro, e isso mesmo levando em consideração de que tínhamos plena consciência de que não tínhamos andado muito.
Era quase impossível ouvir os próprios passos e não existia nenhum som no ambiente, era como se até os grilos estivessem mortos e os ventos não balançassem os galhos retorcidos.  Eu me sentia cada vez mais estranho naquele lugar completamente enlouquecedor.
Anaeteth! Exclamou o senhor Steinhoff, e naquele momento eu não havia entendido o que ele dissera, eu nunca ouvira este nome e nem nada parecido em absolutamente nenhum lugar, eu achei particularmente muito estranho ele dizer este nome tão repentinamente, mas eu ignorei um pouco e, prestando atenção aonde eu pisava, comerei a caminhar novamente enquanto ele começava a contar.  Segundo ele Anaeteth é uma ordem ocultista que nasceu em Londres no século XVII, após o grande incêndio de 1666 que devastou a cidade. Um jovem excêntrico que assistira sua família morrer com a última epidemia da peste negra ficara obcecado pelo ocultismo quando encontrara um livro de origem obscura intitulado: Colubra Terribilis.  Dizem as lendas que este livro é capaz de abrir as portas dos planos inferiores e assim possibilitar a passagem de demônios para o nosso plano físico e assim realizar uma troca de favores. Eles pedem a liberdade de poder sacrificar a vida de qualquer humano deste planeta, crime pelo qual é cometido por eles mesmos, sob o comando daquele que o opera, e sendo assim, eles realizam tudo o que o ocultista deseja.
Pai de Patrick contava tal história com muito receio, era muito notável, de maneira que era como se ele estivesse sendo cauteloso. Após o término da conversa eu olhei para os céus e percebi que não havia mais nada, absolutamente nada, as estrelas haviam sumido! Estava tudo escuro neste momento como se houvesse uma camada de sombra muito espessa sobre a floresta.
O meu relógio despertara, e quando eu parei para olhá-lo senti algo indescritivelmente terrível dentro de mim, eu não conseguia acreditar no que eu havia visto, eram 10 horas!  Comecei a olhar para o senhor de maneira que o assustara, e rapidamente eu o informei do que eu acabara de ver.  Sua respiração aumentara gradativamente e ele entrara num profundo desespero, seus olhos viraram lentamente para cima e logo ele perdeu sua consciência. Infelizmente, neste momento, começara a chover. Perdido e sem saber o que fazer, eu o carreguei em meus braços e caminhei aleatoriamente pela floresta com esperanças de encontrar alguma saída, me esforçando para ignorar o coro de vozes que se confundia com o vento e que batia fortemente em meu rosto, me enlouquecendo cada vez mais.  Seguindo uma luz esverdeada no horizonte consegui encontrar um lugar desprovido de árvores, e lá avistei uma caverna iluminada por tochas e com uma escadaria. Levando em consideração o lugar aonde eu me encontrava e o meu estado só me restava descer as escadas com o intuito de explorar e ver se encontrava alguma ajuda ou alguma saída, algo que pudesse me livrar daquela situação infernal.  Desci muito concentrado para não cair, pois o corpo estava muito pesado e aquele ambiente não era nada agradável, esta combinação certamente bagunçava com o meu equilíbrio.  Aquela maldita escadaria aparentava não ter fim! Era uma estrutura de arco-romano sobre os degraus que desciam, e os mesmos paravam num chão plano, cuja continuação eram escadas iguais, e assim sucessivamente.  Haviam inscrições por toda parte! Nas paredes, no chão, no teto, em tudo! Haviam também tochas nas paredes de pedra e estátuas em cada novo chão plano que chegava. Sem duvida o mais estranho disso era que as estátuas não ficavam nas laterais e sim no meio do chão, como se estivessem sendo apresentadas àqueles que entravam.  Quanto mais eu descia, mais as estátuas tinham uma aparência terrível! As inscrições em cada nível da escada pareciam estar relacionadas a cada estátua, e todas eram numa língua indizível e que eu nunca havia visto em toda minha vida.
Finalmente! Cheguei no último degrau! Estava quase desmaiando, minha mente aparentava estar sendo drenada, eu precisava de muita concentração para não ter que apreciar um cenário infernal dando voltas. De alguma forma eu não conseguia lembrar das coisas boas da minha vida, eu não tinha mais nenhuma esperança!
O arco sobre a porta de carvalho era mais verde-escuro em relação às outras pedras como se estivesse apodrecendo a partir daquele exato ponto, e de maneira estranha o vão por de baixo da porta emitia uma espécie de luz negra, o que obviamente não fazia sentido algum.
Mas sem pensar duas vezes, abri a porta rapidamente, para não ter que ficar olhando o que havia por trás daquele cenário pouco a pouco, para quebrar o clima de tensão. E foi exatamente neste momento! Finalmente, neste momento!  Que eu desmaiei. Eu me vi exatamente no meio da floresta com um monte de pessoas estranhas e revestidas com um longo manto preto, eu não fazia mais idéia nenhuma do que estava acontecendo, só queria tudo aquilo acabasse, era tão terrível!
De repente eu ouvi um barulho de intensidade muito grande, era um barulho diferente de tudo o que eu já tinha ouvido, e inesperadamente ficara tudo completamente preto.  Somente após um tempo ali desmaiado, abri os olhos e me encontrei no meio de uma pedra, amarrado até os pés, assim como o Pai de Patrick no meu lado esquerdo.  Havia um círculo de estátuas enormes, e eram as mesmas que eu avistara enquanto descia aquelas escadas, mas a diferença era a de que tamanho desta vez era monumental.  O círculo era perfeito, e todos que estavam ali presentes dançavam de maneira diabólica, como se estivessem todos possuídos, parecia muito com uma espécie de culto ou cerimônia, mas não fazia idéia do propósito.
Uma dessas pessoas não estava dançando, e esta se aproximou de mim, tirou-me o capuz. Era uma mulher com uma expressão aterradora em seu rosto, ela colocara num bloco de pedra entre eu e o pai de Patrick o livro, o Colubra Terribilis.  Começara então a professar umas palavras estranhas sem desviar os olhos arregalados do livro, e com os braços abertos e levantados, mas um pouco curvados, e ela possuía uma espécie de véu negro que revestia a parte dos braços no manto negro.
Uma espécie de respiração começara a aumentar, e pouco a pouco a pedra onde eu estava começara a tremer. Os olhos das estátuas ao redor ascenderam, e os olhares!  Aqueles olhares! Não os esquecerei por infinitas vidas.  Conforme os sons, urros infernais, respirações ofegantes, gritos e os tremores aumentavam gradativamente, tanto quanto, aumentava a minha loucura.
E finalmente aquela terra negra no espaço entre mim e o senhor levantara com um estrondo enorme, e em menos de dois segundos havia uma serpente negra me encarando.  Em seguida, ao som de raios, acordei em meu quarto com o despertador tocando, marcando a minha volta para a vida, eram 3 horas.




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