Anaeteth
.
Minha
vida acaba quando atendi aquele maldito telefone, eu desci as escadas com o
cabelo desarrumado às 3 da manhã sem nem ao menos entender o que estava
acontecendo naquele momento, ele não havia me informado de absolutamente nada.
Acabei
por me mudar para um lugar que me jogara no abismo, localizado literalmente no
meio do nada, já que ao redor do vilarejo só existem quilômetros de floresta
ressecada e desprovida de vida.
Meu
vizinho, que me ligara a poucos instantes, era pai do jovem Patrick, que
constantemente desaparecia, sem deixar pistas. Naquela mesma noite o pai de
Patrick Steinhoff me pedira que o acompanhasses pela floresta para ajudar-lhe
na busca de seu filho, já que o mesmo tivera um pesadelo terrível envolvendo o
seu filho e um grupo que o preocupava muito.
Todos
os moradores do local mantinham suas janelas fechadas durante a noite, assim
como todas as portas trancadas, menos eu. Voltavam sempre para suas casas após
as 10 horas da noite, e levavam os animais para dentro de seus respectivos
estabelecimentos, afirmando temerosos acontecer coisas inexplicavelmente
perturbadoras. Eles disseram que
colocavam os animais para dentro porque se não o fizessem um ou dois deles
morreriam de maneira terrível, e porque sempre que isso ocorre nunca é
encontrado nenhum sangue dentro do anima, e que todas as vezes sempre ocorre
entre as 10 horas da noite e 3 da madrugada.
Para todos no vilarejo a floresta possui vida própria, e
aqueles
que
lá permaneceram por alguns instantes durante este período voltaram em profundos
estados de loucura, chorando em momentos indefinidos e com olhares vazios, de
maneira que assustaria até o mais terrível dos homens. Mas naquele momento eu não sabia de nada, e
voltando àquela maldita noite: Eu me senti muito mal assim que saí de casa, com
aquela brisa gélida que carregava um cheiro indescritível de terra úmida, e com
aquele céu cor verde-escuro absolutamente assustador a um ponto de me fazer
acreditar na possibilidade do mesmo ter sugado as cores daquela floresta morta
infernal.
Na
medida em que entrávamos na floresta o cheiro aumentava e de alguma forma a
distância de nós dois e o vilarejo também, de maneira que dava a impressão de
que quando olhávamos para trás estivéssemos cada vez mais afastados, e que estivesse
cada vez mais escuro, e isso mesmo levando em consideração de que tínhamos
plena consciência de que não tínhamos andado muito.
Era
quase impossível ouvir os próprios passos e não existia nenhum som no ambiente,
era como se até os grilos estivessem mortos e os ventos não balançassem os
galhos retorcidos. Eu me sentia cada vez
mais estranho naquele lugar completamente enlouquecedor.
Anaeteth!
Exclamou o senhor Steinhoff, e naquele momento eu não havia entendido o que ele
dissera, eu nunca ouvira este nome e nem nada parecido em absolutamente nenhum
lugar, eu achei particularmente muito estranho ele dizer este nome tão
repentinamente, mas eu ignorei um pouco e, prestando atenção aonde eu pisava,
comerei a caminhar novamente enquanto ele começava a contar. Segundo ele Anaeteth é uma ordem ocultista
que nasceu em Londres no século XVII, após o grande incêndio de 1666 que
devastou a cidade. Um jovem excêntrico que assistira sua família morrer com a
última epidemia da peste negra ficara obcecado pelo ocultismo quando encontrara
um livro de origem obscura intitulado: Colubra Terribilis. Dizem as lendas que este livro é capaz de
abrir as portas dos planos inferiores e assim possibilitar a passagem de
demônios para o nosso plano físico e assim realizar uma troca de favores. Eles
pedem a liberdade de poder sacrificar a vida de qualquer humano deste planeta,
crime pelo qual é cometido por eles mesmos, sob o comando daquele que o opera,
e sendo assim, eles realizam tudo o que o ocultista deseja.
Pai
de Patrick contava tal história com muito receio, era muito notável, de maneira
que era como se ele estivesse sendo cauteloso. Após o término da conversa eu
olhei para os céus e percebi que não havia mais nada, absolutamente nada, as
estrelas haviam sumido! Estava tudo escuro neste momento como se houvesse uma
camada de sombra muito espessa sobre a floresta.
O
meu relógio despertara, e quando eu parei para olhá-lo senti algo
indescritivelmente terrível dentro de mim, eu não conseguia acreditar no que eu
havia visto, eram 10 horas! Comecei a
olhar para o senhor de maneira que o assustara, e rapidamente eu o informei do
que eu acabara de ver. Sua respiração
aumentara gradativamente e ele entrara num profundo desespero, seus olhos
viraram lentamente para cima e logo ele perdeu sua consciência. Infelizmente,
neste momento, começara a chover. Perdido e sem saber o que fazer, eu o
carreguei em meus braços e caminhei aleatoriamente pela floresta com esperanças
de encontrar alguma saída, me esforçando para ignorar o coro de vozes que se
confundia com o vento e que batia fortemente em meu rosto, me enlouquecendo
cada vez mais. Seguindo uma luz
esverdeada no horizonte consegui encontrar um lugar desprovido de árvores, e lá
avistei uma caverna iluminada por tochas e com uma escadaria. Levando em
consideração o lugar aonde eu me encontrava e o meu estado só me restava descer
as escadas com o intuito de explorar e ver se encontrava alguma ajuda ou alguma
saída, algo que pudesse me livrar daquela situação infernal. Desci muito concentrado para não cair, pois o
corpo estava muito pesado e aquele ambiente não era nada agradável, esta
combinação certamente bagunçava com o meu equilíbrio. Aquela maldita escadaria aparentava não ter
fim! Era uma estrutura de arco-romano sobre os degraus que desciam, e os mesmos
paravam num chão plano, cuja continuação eram escadas iguais, e assim
sucessivamente. Haviam inscrições por
toda parte! Nas paredes, no chão, no teto, em tudo! Haviam também tochas nas
paredes de pedra e estátuas em cada novo chão plano que chegava. Sem duvida o
mais estranho disso era que as estátuas não ficavam nas laterais e sim no meio
do chão, como se estivessem sendo apresentadas àqueles que entravam. Quanto mais eu descia, mais as estátuas
tinham uma aparência terrível! As inscrições em cada nível da escada pareciam
estar relacionadas a cada estátua, e todas eram numa língua indizível e que eu
nunca havia visto em toda minha vida.
Finalmente!
Cheguei no último degrau! Estava quase desmaiando, minha mente aparentava estar
sendo drenada, eu precisava de muita concentração para não ter que apreciar um
cenário infernal dando voltas. De alguma forma eu não conseguia lembrar das
coisas boas da minha vida, eu não tinha mais nenhuma esperança!
O
arco sobre a porta de carvalho era mais verde-escuro em relação às outras
pedras como se estivesse apodrecendo a partir daquele exato ponto, e de maneira
estranha o vão por de baixo da porta emitia uma espécie de luz negra, o que
obviamente não fazia sentido algum.
Mas
sem pensar duas vezes, abri a porta rapidamente, para não ter que ficar olhando
o que havia por trás daquele cenário pouco a pouco, para quebrar o clima de
tensão. E foi exatamente neste momento! Finalmente, neste momento! Que eu desmaiei. Eu me vi exatamente no meio
da floresta com um monte de pessoas estranhas e revestidas com um longo manto
preto, eu não fazia mais idéia nenhuma do que estava acontecendo, só queria
tudo aquilo acabasse, era tão terrível!
De
repente eu ouvi um barulho de intensidade muito grande, era um barulho
diferente de tudo o que eu já tinha ouvido, e inesperadamente ficara tudo
completamente preto. Somente após um
tempo ali desmaiado, abri os olhos e me encontrei no meio de uma pedra,
amarrado até os pés, assim como o Pai de Patrick no meu lado esquerdo. Havia um círculo de estátuas enormes, e eram
as mesmas que eu avistara enquanto descia aquelas escadas, mas a diferença era
a de que tamanho desta vez era monumental.
O círculo era perfeito, e todos que estavam ali presentes dançavam de
maneira diabólica, como se estivessem todos possuídos, parecia muito com uma
espécie de culto ou cerimônia, mas não fazia idéia do propósito.
Uma
dessas pessoas não estava dançando, e esta se aproximou de mim, tirou-me o
capuz. Era uma mulher com uma expressão aterradora em seu rosto, ela colocara
num bloco de pedra entre eu e o pai de Patrick o livro, o Colubra
Terribilis. Começara então a professar
umas palavras estranhas sem desviar os olhos arregalados do livro, e com os
braços abertos e levantados, mas um pouco curvados, e ela possuía uma espécie
de véu negro que revestia a parte dos braços no manto negro.
Uma
espécie de respiração começara a aumentar, e pouco a pouco a pedra onde eu
estava começara a tremer. Os olhos das estátuas ao redor ascenderam, e os
olhares! Aqueles olhares! Não os
esquecerei por infinitas vidas. Conforme
os sons, urros infernais, respirações ofegantes, gritos e os tremores
aumentavam gradativamente, tanto quanto, aumentava a minha loucura.
E
finalmente aquela terra negra no espaço entre mim e o senhor levantara com um
estrondo enorme, e em menos de dois segundos havia uma serpente negra me
encarando. Em seguida, ao som de raios,
acordei em meu quarto com o despertador tocando, marcando a minha volta para a
vida, eram 3 horas.




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