quinta-feira, 29 de dezembro de 2016



Sou funcionario do cartoon network ja faz um tempo, eu adoro esse trabalho, alem de eu ganhar bem sou um dos primeiros a assistir novos desenhos e novos episodios, um dos desenhos que eu me amarro e Hora de Aventura, e um desenho muito divertido mas, eu testemunhei uma coisa muito pertubadora vinda dele. Vou contar...

Era dia de estreia de mais uma temporada de Hora de Aventura e como sempre eu e os outros funcionarios eramos os primeiros a assistir. Então entramos na sala sentamos e esperamos começar. Dai tudo bem, começou a abertura normalmente, mas o episodio não tinha titulo, dai pensamos, Ah, ainda deve estar em fase de desenvolvimento por isso não tem titulo, então ficamos quietos e assistimos. O desenho começou na casa da arvore e aparece Finn com um look no minimo estranho, ele estava com uma roupa no estilo punk, estava sem o seu chapeu e seus cabelos ao inves de loiros estavam negros, um negro bem profundo. Logo depois aparece a princesa Jujuba também com um estilo parecido com o de finn, e Jujuba diz a Finn que o Rei Gelado raptou mais princesas e que precisa de sua ajuda, Finn simplesmente ficou furioso e jogou uma pedra na cabeça da princesa jujuba, Jujuba cai no chão e Finn começa a dar repetidas pancadas com a pedra na cabeça da jujuba, a jujuba levanta e começa a jorrar sangue de sua cabeça encharcando Finn e toda a sala da casa da arvore de sangue, Princesa jujuba depois desmaia. Nos achamos aquilo tenebroso, muitos dos funcionarios estavam chingando e perguntando quem foi o encarregado disso, eu e mais alguns funcionarios continuamos a assistir. Finn sai da casa da arvore e vai ate o reino doce, ele pergunta a jake se quer ir mas jake, com um tom obscuro diz NÃO, estou ocupado fazendo coisas que Deus tem medo, Finn então mostra o dedo do meio ao Jake e sai, Finn ao entrar no reino doce começa a simplesmente chingar todos do reino falando Fodam-se, Fodam-se, vão para o inferno!, Finn ainda vandalizou todo o reino, e simplesmente sem nenhum tipo de censura tira sua roupa e olha para a tela, como se nos tivesse encarando, e ficou por cerca de um minuto la, parado com aqueles olhos de maniaco, e derrepente ele aponta o dedo para a tela e diz, Fodam-se. Dai a tela fica escura por um tempo, então do nada aparece Finn com suas vestimentas padrão porem com sua boca ensanguentada e com seu braço cravando a espada em seu peito parecedo que todos os seu membros do corpo estava contra ele. Dai o episodio acabou, eu me senti mal e fiquei simplesmente paralisado sentado na frente do telão, e os funcionarios gritando de raiva querendo falar com quem fez aquela desgraça, o diretor do desenho quando viu o episodio alegou que não tinha nada haver com aquilo e disse que absolutamente ninguem da equipe teria feito aquele episodio, depois disso mais ninguem se pronunciou, o episodio foi totalmente descartado e destruido e nunca mais ouvimos falar dele.

Episódio Perdido-Hora de Aventura:A Revolta de Finn







Eu estava navegando na internet após um dia longo no trabalho, no Cartoon já não estava mais passando steven universo, que era o desenho que eu mais gostava, bem, aos 30 anos eu gosto de assistir steven universo, meu filho ainda não acredita. então estava num site de desenhos animados, no canto da tela, tinha um botão, escrito "Assista o Episódio de Steven ****" logo pensei que era o desenho animado do cartoon, então cliquei no botão... a tela então ficou feia, o fundo ficou preto, o título do site ficou feito em arial black, não era o animado site de desenhos que eu conhecia, a página carrega completamente, então aparece uma foto da intro do steven universo, eu cliquei pensando que iria ver um episódio bom e bonito, não era bem assim.

Ao clicar no botão de play aparece uma espécie de estática, logo aparece uma jumpscare de Steven, ele não estava bonitinho com o steven real, ele estava triste, com uma aparência assustadora, sangue escorria nos seus olhos, com um texto logo ao lado, "Você é o único que pode me salvar". esse jumpscare durou exatamente 3 segundos, logo um frio em minha espinha, pois no fundo, algo começava a se mexer, uma música de piano depressiva começava a tocar, então no fundo, forma uma especie de homem negro, ele tinha olhos brancos, então ele fica me encarando por 5 segundos, meu coração começa a bater rápido, eu sentia que aquela coisa no fundo iria fazer algo de ruim comigo, uma tela de tv fora do ar aparece, e logo a intro de steven universo.

Algo estava errado, steven não estava lá, apenas Garnet, Ametista, a música estava em reverso, a intro termina.

O Episódio começa, ametista está lutando com Lapis Lazuli, enquanto Garnet a ajuda, até agora, nenhum sinal da perola, ela deveria estar lutando e ajudando as 2 gems, então a tela corta para Perola,

"Steven, você vai gostar muito daqui."

-"Sério Perola, que legal!"

Então aparece uma criatura, ela tinha chifres é olhos vermelhos, "Steven, fique atrás da Pedra! eu derroto esse chifrudo!" -"Não pérola! eu cansei de ser tratado como um inútil das gems, eu vou ajuda-la, então o possível demônio ataca steven com uma bola de fogo, steven e acertado na barriga, fazendo com que a chave de um portal se quebre, é o portal se fecha, aquela era a única saída dos 2 sairem dali, então, perola fica furiosa, "GRRR! STEEEEEEVEN!" Perola ataca o demonio com uma lança, o demonio grita de sofrimento, perola cada vez perfura mais forte o demonio, então ele se apaga e vira areia, Perola olha para steven com um olhar furioso é assustador, sua roupa estava melada de sangue, então ela começa a correr atrás de steven, steven corre desesperadamente para salvar sua vida, -"Perola, se controle!" então steven descide se defender, ela cria um escudo e empurra perola, ela cai de um Precipício, ela fica de barriga para baixo, ela está vendo pelo seus olhos sua morte, um monte de pedras conjutas em formato de cones, ela cai, um Grito muito alto sai do computador, um sangue escorria dos olhos e do corpo de perola, ela estava morta. -"Perola, me desculpe." Steven se ajoelha no chão, pela sua aparência, ele estava depressivo, Lapis Lazuli finalmente recua.

--"Ametista, cadê a Perola?"

---"Ela deveria estar com o steven nos ajudando, vamos ver no topo da colina."

As duas entram na casa, encontram um portal semi-aberto,

--"Eu não acredito"

---"Ohh, ela foi..."

--"TEMOS QUE SALVA-LOS!"

As duas pegam uma chave e jogam dentro do portal semi-aberto, ele fica mais largo, o suficiente para as duas entrarem, Elas chegam no estranho lugar, Garnet começa a soar, então uma cena assustadora, alguns demônios estavam devorando steven, um grito de pavor soava no desenho, então, steven finalmente morre, garnet e ametista matam os demônios que estavam cercando steven,

--"Steven, acorde!"

Então ametista acha uma carta de socorro que estava no bolso de steven, nela... estava escrito, "Você é o único que pode me salvar" eu rapidamente puxei meu computador da tomada, aquilo era aterrorizante, tão pertubador, que eu nunca mais vou ver steven universo.

fonte: http://creepypastadark.blogspot.com.br/

O Episódio Perdido de Steven Universo

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016



Procedimentos de contenção especiais: A interação com SCP-775 deve ser feita através de assistência robótica sempre que possível. Caso seja necessário a interação humana, todos os funcionários devem usar o
 traje Haz-Mat Mk2 blindado em todos os momentos. Caso algum resquício de rasgo seja encontrado em um dos trajes, o assunto deve ser imediatamente colocado em quarentena e deve passar por uma verificação se há sinais de infestação. As áreas de contenção devem ser revestidas com uma camada de chapa de aço, com todas as articulações e soldagens tão apertadas quanto possível, sem comprometer a integridade estrutural. Um selo de duas partes deve ser mantido como o único ponto de acesso para a área de contenção. Canos de ar deverão ser inundados com água sanitária, se qualquer unidade de SCP-775 for detectado dentro da câmara de vácuo, e continuarão a ser inundados por cinco minutos, ou até que todos os SCP-775 tenham sido rescindidos. A área de contenção deve ser pulverizada com água sanitária em uma base mensal para manter a densidade populacional. A alimentação não deve exceder duas vezes [DATA expurgado] fornecidos apenas a critério do Comando do setor.

Descrição: SCP-775 parece ser uma forma de aracnídeo da ordem Ixodida, mais comumente conhecida como o carrapato. Ele é de um tamanho significativamente maior, com a maioria dos adultos, atingindo uma dimensão comparável com a de um níquel dos EUA. A coloração varia entre tons de preto, vermelho, amarelo, cinza, em cada um. Os adultos possuem oito pernas, enquanto que os juvenis possuem apenas seis. SCP-775 é capaz de fazer pequenos saltos, e viaja muito rapidamente ao longo de superfícies sólidas.


SCP-775 possui em algumas partes, característica de uma estrutura de corpo flexível, mas é muito mais robusto do que o carrapato comum, capaz de sobreviver à esmagamentos,rasgos ou cortes com pouco ou nenhum dano, e capaz de nivelamento para deslizar através lacunas de até 0,25 centímetros. SCP-775 é também capaz de inchar até quatro vezes o seu tamanho original durante a alimentação, embora isso não ligeiramente dificulte a sua capacidade de se mover. As pernas de SCP-775 também são muito fortes, e são capazes de danificar concreto ao longo do tempo.

SCP-775 alimenta-se de uma maneira semelhante à do carrapato comum, mas mais intensamente. SCP-775 injeta uma enzima para aumentar o fluxo de sangue, e que começa a liquefazer outros tecidos. Esta enzima irá atacar todos os tecidos, exceto aqueles que compõem as camadas da pele. SCP-775, então, come o sangue e tecido liquefeito até que esteja totalmente inchado. Ele, então, colocará um saco de ovos contendo 20-30 novos SCP-775 sobre ou perto do sujeito hospedeiro, e em seguida, retomará a alimentação.

SCP-775 irá alimentar-se de todos os animais vertebrados, e continuará a se alimentar e se reproduzir no hospedeiro até que ele já não seja capaz de fornecer nutrientes. Os novos SCP-775, muitas vezes, se enterram sob a pele e tentam se alimentar de tecidos liquefeitos diretamente de lá. O hoespedeiro acabará por ser totalmente esvaziada, com apenas as camadas externas da pele remanescentes. SCP-775, em seguida, preencherá a pele com ovos, e em seguida, partirão para encontrar um novo hospedeiro. Hospedeiros em estágios avançados de infestação são descritos como tomando uma forma "inchada" ou "deformada", muitas vezes com múltiplos SCP-775 ligados a muitos lugares no corpo. Os "ninhos" na pele são muitas vezes cheios até a capacidade máxima que a pele é capaz de carregar. O SCP-775 é capaz de reproduzir crias, dois dias após a eclosão, com ovos que levam cerca de 24-30 horas para eclodir, em média. Este ciclo de vida acelerado e a capacidade de resistir a maioria das formas de dano físico, pode levar o SCP-775 a uma explosão populacional quase contínua. Lixívia parece ser eficaz no controle do SCP-775, que acaba por morrer depois de vários minutos submerso no mesmo.

Notas sobre a recuperação:

SCP-775 foi primeiro encontrado em [DATA expurgado] A família Stull parece ter sido as primeiras infectadas. A equipes de resgate encontrou apenas um macho adulto e uma fêmea juvenil que ainda viviam na casa, que se presume-se ter se hospedado em ███████ (idade ██) e █████ (idade ██) Stull. Ambos estavam em estágios muito avançados da █ ████████ ██ infestação, tornando a identificação difícil. A maioria dos membros do SCP-775 parecem ter preferência por infestar mãos, pés, face e abdômen dos indivíduos. Os mesmbros restantes da família foram encontrados no porão, sendo utilizados como "ninhos" para novos SCP-775, com uma das peles já descartada. Vários milhares de unidades de SCP-775 estavam presentes na casa, e não se sabe se os indivíduos usados ​​como "ninhos" foram transportados para o porão por SCP-775, os restantes membros da família, expiraram naturalmente. Evidências de [DATA expurgado] serão destruídos; no entanto, os registros serão mantidos para referência segura.

Fonte: SCP-Wiki

SCP-775




Benthlem Royal Hospital, esse é o nome do maldito lugar que torturava seus pacientes (as vezes como diversão), vamos citar alguns métodos e procedimentos que eles usavam para "curar seus pacientes".

1 - Trancavam os pacientes em jaulas
O Hospital cobrava ingressos do público, e o que eles podiam fazer, era simplesmente, cutucar os coitados nas jaulas com varas (de qualquer forma), como se fossem animais.

2 - Até quem não precisava estar lá
O Hospital abrigava quem era epilético ou tinha dificuldade de aprendizagem (o que hoje não é nada de deficiência mental)

3 - Cadeira Giratória
Um dos mais estranhos e crueis tratamentos era esse, o paciente tinha que ficar numa cadeira giratória no teto e girava ele como uma centrífuga, tudo bem que ficar numa dessas no parque diversões por alguns minutos é divertido, mas eles não ficavam por minutos, ficavam por horas. As vezes o paciente ficava lá até por 12 horas, o que podia matá-lo

4 - Tratamentos Brutais
Um dos "tratamentos" era dar banhos frios, espancar e deixar os pacientes com fome, os tratamentos eram tão cruéis, que o hospital recusava pessoas que pareciam ser fracas demais, e podiam não aguentar tudo aquilo.

5 - O Cemitério do Lugar
Bethlem-manicômioAlguns não aguentavam tanta crueldade, acabavam morrendo, suas famílias não queriam nem saber dele, por que achavam que não tinham cura, então deixavam apodrecendo dentro daquele hospital. Os corpos eram eliminados deixando eles perto da rua do Hospício.

6 - Sem Inspeção 
Bethlem-manicômioO Manicômio passou 40 anos sem uma única inspeção, e quando acontecia, só checavam uniformes e utensílios domésticos.

7 - James Norris
Um dos piores casos foi desse cara, Norris passou 10 anos acorrentado às paredes de Bethlem.
Apenas em 1814 seu caso veio à tona, foi liberto, mas ainda confinado no hospital. Suas condições de saúde eram tão ruins, que morreu uma semana depois, de tuberculose e pneumonia

Benthlem Royal


Durante o expediente na repartição pública, Ramon fazia questão de ser apenas um fantasma, aquele que batia o ponto exatamente no horário, respondia aos cumprimentos dos colegas de trabalho com resmungos, sentava-se à mesa na seção contábil e anulava-se no mundo dos números. Nunca foi convidado para reunir-me com a turma no barzinho às sextas-feiras à noite, não participava de brincadeiras tipo amigo-secreto, jamais foi a um batizado de filhos de funcionários, sua boca sempre permaneceu descaída quando o chefe contava piadas idiotas – ninguém tentava conquistar sua amizade, o que lhe parecia uma bênção.
Mas há dois dias o comportamento de Ramon mudou. Passou a xingar os colegas da repartição por qualquer coisinha, a chutar a lixeira perto da mesa, teve duas ou três crises constrangedoras de choro convulso, ali, bem diante de todos. Consequência: prestes a terminar o expediente, foi chamado à sala da chefia, recebeu uma suspensão de três dias e conselho para procurar um psicólogo.

O motivo para essa anormalidade no seu cotidiano de arquivo-morto foi que assaltaram sua moradia e furtaram, entre outras coisas, uma luneta que ele, Ramon, levou exatos oito meses para pagar em suadas prestações. A luneta era seu bem mais precioso, o instrumento que dava alguma cor em seu viver: Ramon saía da repartição, pegava o ônibus, chegava ao bairro, comprava uma quentinha no restaurante da esquina e subia para a residência no sétimo andar. Tomava banho, vestia o roupão, comia, tomava um copo d'água e ia para a janela bisbilhotar os moradores do Grande Hotel Lancaster – um prédio de doze andares muito antigo situado do outro lado da rua.
O edifício estava condenado, mas, sabe-se lá por qual razão, todas as tentativas de implosão tinham acabado em tragédia, em menor ou maior proporção. Da última vez (e isso fazia uns três meses), os operários estavam instalando os explosivos na base da construção quando um deles foi para os ares, a carga de dinamites misteriosamente detonou na mão do especialista e, o mais curioso, apenas o profissional fragmentou-se como uma pedra de gelo atingida por um martelo. Do prédio mesmo, não caiu nem mesmo uma lasca de reboco. Como o imóvel não queria ser demolido, uns doidos começaram a usá-lo como moradia, às escondidas.
Talvez não fossem realmente doidos, apenas excêntricos – assim pensava Ramon –, já que ninguém ousava aparecer na rua durante o dia. A bem da verdade, só algumas janelas brilhavam durante a noite, uns poucos moradores descerravam as cortinas e, parece, não se importavam que Ramon espionasse suas intimidades.
No começo Ramon costumava olhar um jovem casal morador no quinto andar e ficava intrigado com a maneira peculiar de eles fazerem sexo. Antes e depois da relação carnal os dois ajoelhavam-se ao lado da cama e pareciam rezar – mas com o passar das noites Ramon percebeu que o casal trocou a luz do teto, fluorescente, por lâmpadas que proporcionavam uma claridade soturna, de um roxo-violáceo, e viu também que num móvel escuro de contornos semelhante a um oratório queimavam velas vermelhas e pretas. De pronto perdeu o interesse pela intimidade daquela gente. Havia no sexto andar uma garota lésbica que lhe chamou a atenção pela facilidade com que arranjava parceiras. Ficou fascinado pelo instinto caçador da moradora – até que a flagrou numa suruba com três marmanjos. Aquilo foi a gota d'água, Ramon perdeu todo o respeito que nutria por ela. No mais, o que se via em um ou outro apartamento eram coitos simples, papai-e-mamãe, sem nenhum atrativo digno de observação. Exceto no sétimo andar. O casal de meia idade fazia estripulias na cama que era de infantilizar as posições sexuais do livro Kama Sutra. Assim, Ramon concentrou suas atenções apenas naquelas duas pessoas.
Agora estava de gancho. Ramon deixou o gabinete do chefe de seção com uma raiva tão danada que sentia na boca o gosto amargo do fel destilando em seu organismo - além de ficar sem a luneta, teria que se afastar do trabalho, sem sal, é verdade, mas que de qualquer forma ajudava a enganar a miserabilidade da rotina diária. Voltou para sua mesa e estava tão revoltado que ninguém ousou ao menos levantar os olhos para o seu lado.
Deixou a repartição como sempre fazia, às cinco da tarde, e aproveitou o restinho do dia para passear pelo calçadão, vistoriando com o olhar atento as óticas e lojas congêneres. Viu algumas lunetas, a maioria era produto de baixíssima qualidade, as de alto padrão estavam acima de suas possibilidades monetárias. Por fim acabou comprando um binóculo ordinário e prometeu a si mesmo que tal coisa seria um paliativo. No findar do mês haveria de entrar no crediário para a aquisição de nova luneta – tão portentosa como a que fora furtada. Comeu um cachorro-quente numa lanchonete e foi ao cinema, assistiu a um filme de ficção científica sobre a dominação da humanidade por robôs, saiu de lá por volta das onze da noite e rumou para casa – aquela era a hora de testar a funcionalidade do seu novo brinquedinho, se bem que não estava botando fé naquele binóculo tão mixuruca.
Ao chegar ao prédio o porteiro da noite deixou por breve momento a leitura do livrinho de faroeste e entregou a Ramon um curioso envelope roxo com seu nome escrito em letras góticas.
– Quem deixou isso? – perguntou Ramon ao porteiro.
– Sei lá, eu fui ao banheiro, quando voltei o envelope tava em cima do balcão.
Ramon subiu para o apartamento com a cabeça atordoada. Ninguém nunca, jamais, lhe escrevera uma linha sequer – e a sua primeira correspondência era aquilo, um envelope macabro. Sentou-se à mesa da cozinha, abriu o envelope e tirou uma folha de papel amarelo. Havia só uma frase escrita com tinta dourada: "Oi, querido, nós te convidamos para vir nos conhecer pessoalmente." Não havia assinatura, mas Ramon sabia que os remetentes moravam no Grande Hotel Lancaster. Desembrulhou o binóculo e foi para a janela, assim que posicionou o instrumento todas as janelas se iluminaram como se o edifício fosse uma árvore de Natal. Fascinado, Ramon constatou que as cortinas estavam abertas.
O binóculo era fantástico, muito melhor que a luneta, podia ver cada detalhe do pessoal esquisito. E o que constatou, com espanto, é que todos estavam usando trajes a rigor. As mulheres cobriam-se de vestidos de zemberlines, tafetás de seda, shantungs, georgettes e jacquards – uns vestidos com decotes mostrando grandes porções de bustos graciosos cobertos com jóias de muitos matizes cintilando numa disputa feroz com a claridade ofuscante dos apartamentos. Os homens trajavam smokings, as exceções eram um militar com a farda carregada de medalhas e um outro indivíduo com um uniforme engraçado, principalmente por causa do chapéu de três pontas que lembrava Napoleão Bonaparte. Apesar de sua sala estar mergulhada na escuridão, Ramon concluiu que os indivíduos do edifício de alguma maneira não só tinham conhecimento que estavam sendo observados naquele minuto, como tinham atitudes do mais puro exibicionismo.
No quinto andar uma loira alta, linda, ergueu uma taça de champanhe em sua direção, um sorriso magnífico no rosto de linhas harmoniosas, perfeitas. Fascinado, Ramon ficou muito tempo analisando-a, mentalmente fantasiando que acariciava aqueles cabelos dourados que lhe caíam pelas costas em graciosas ondas – em suaves cascatas, diria alguém com espírito poético. Ela mandou um beijinho com a ponta dos dedos unidos, depois pegou o celular e, ainda olhando-o, teclou. O seu telefone fixo na sala estridulou. Ramon ficou confuso, cheio de perguntas para si mesmo: como ela sabia o seu número? Porque só podia ser ela fazendo a ligação, ninguém jamais tentou falar com Ramon naquele telefone e, é claro, o aparelho já estava instalado quando ele alugara o imóvel. Correu atarantado para a mesinha, ao atender suas mãos cobriam-se de gotículas de suores gelados. Antes de abrir a boca, ouviu:
– Olá, meu querido, você não vem?
A voz que chegava ao seu ouvido era absolutamente encantadora, quente, envolvente, sexy e acariciante. Ramon engoliu salivas várias vezes antes de perguntar:
– Vocês estão dando uma festa?
– Estamos sim, uma festa de despedida. Antes de raiar o dia estaremos todos de mudança, não é mais possível adiar a implosão desse maravilhoso hotel.
– Vão embora?!
– Nosso Mestre encontrou um castelo magnífico no Sul da França. Está em ruínas, é claro.
– Não façam isso, eu não quero – disse Ramon, infantilmente.
– Temos que mudar, querido. Fazemos isso há muito tempo, não é um inconveniente, muito pelo contrário. É tão bom mudar de ares! E na França agora é outono, você não acha o outono a estação mais linda do ano?
– Prefiro o inverno...
– Oh, que fofinho! Você vem?
– Não tenho traje a rigor...
– Vista o seu terno de formatura.
– Como sabe que ainda tenho meu terno de formatura?
– Meu querido acredite, eu sei de tudo. De tudo!
– Será que o terno ainda me serve?
– Claro que serve! Olha, vou esperar você na recepção do hotel. Por favor, não demore, querido... – A mulher desligou, Ramon correu para a janela, posicionou o binóculo – o apartamento estava vazio, todos os apartamentos estavam vazios. Então ouviu o som de valsa, era isso, a festa estava começando. Rapidamente dirigiu-se para o guarda-roupa, retirou o terno escuro de gabardine de quando se formara em Ciências Contábeis, vestiu-o, calçou meias amarelas – não as tinha da cor preta –, o par de sapatos social um tanto empoeirado, uma gravata fina cinzenta, olhou-se no espelho.
– Estou bem? – Perguntou-se.
– Sim, estou ótimo! – Respondeu baixinho, sorrindo para o seu reflexo.
O porteiro sentia profunda aversão por Ramon, só lhe dirigia a palavra quando era absolutamente necessário. Mas naquele momento, vendo-o de terno e gravata, não resistiu à curiosidade.
– Vai para algum velório? – perguntou.
Ramon sorriu – era a primeira vez na vida que o porteiro via o rosto daquele rapaz abestalhado abrir-se num rasgo de alegria.
– Vou a uma festa.
O porteiro largou o livrinho de faroeste aberto em cima do balcão e emparelhou-se a Ramon, ambos dirigiram-se para a porta de saída.
– Posso saber onde é o baile? – Perguntou assim que chegaram à calçada.
– Ali. – Ramon apontou a fachada do Grande Hotel Lancaster.
– Só se for pra dançar com fantasmas, o hotel tá completamente abandonado, se duvidar até as baratas e ratos fugiram dali.
– Não está vendo todas as luzes acesas? – Estranhou Ramon.
–Cara, o que você tem, tá maluco, é? O lugar tá mais escuro que a alma do capeta.
Ramon indignou-se, até um cego perceberia aquela explosão de luzes. Achou que o porteiro estava querendo gozar com sua cara. Mas a música, não estaria ouvindo? O som estava bem alto, um som de música orquestral ao vivo, com toda certeza uma orquestra inteirinha estava tocando no salão de bailes do Grande Hotel Lancaster.
– Não está ouvindo a música?
– Você é retardado? Que música?
– Você não passa do sujeito mais ignorante do mundo. Um completo idiota. – Ramon indignou-se.
O porteiro, morrendo de rir, ficou plantado na calçada observando Ramon atravessar a rua. Então parou de rir ao ver que o esquisitão adentrava o hotel em ruínas. Ele teve que admitir, Ramon era amalucado, é verdade, mas que coragem! Santo Deus, que coragem!
Algumas horas depois, Ramon saiu daquele hotel sinistro com a felicidade estampada em cada centímetro de seu rosto, passou pela portaria, chamou o porteiro e disse:
– Osvaldo, poderia me fazer um favor?
– Claro! – Respondeu o porteiro, esperando por mais uma maluquice de Ramon.
– Se alguém perguntar por mim, diga que mudei para a França. – Disse adentrando o prédio.

O Hotel Lancaster foi implodido no dia seguinte. Ramon foi encontrado três dias depois, enforcado em seu apartamento.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/08/os-estranhos-moradores-do-hotel.html

Os Estranhos Moradores do Hotel Lancaste

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016


Inspire.
Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.
Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.
Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.
Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.
As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa…
Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.
Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.
Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.
Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.
Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.
Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.
Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.
O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.
Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.
Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.
O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.
Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais espesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.
O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.
No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.
Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.
Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.
Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.
Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.
A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.
Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cu chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.
Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.
Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.
Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.
Faço isso de novo, e de novo.
Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cu sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.
E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.
Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.
Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.
As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.
Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.
Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cu. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.
Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.
Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.
Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.
Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.
O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.
Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.
Deus proíba que meus pais vejam meu pau.
Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.
Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.
Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.
Você então vê contra o que eu lutava.
Se eu largo, sai tudo.
Se eu nado para a superfície, sai tudo.
Se eu não nadar, me afogo.
É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.
O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na água turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.
Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.
Algo sobre o qual nem os franceses falam.
Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cu……
Mne eto nado kak zuby v zadnitse.
Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.
Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.
Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cu. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.
Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.
É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.
Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim…
Precisava disso como precisaria de dentes no cu.
Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.
Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.
Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”
Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”
E então a menstruação da minha irmã atrasou.
Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode respirar.
Eu ainda não.

Tripas - Chuck Palahniuk (+16)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


Em um grupo de WhatsApp, achei uma conversa assustadora anotei tudo, veja como foi!

annie96 01:31

você tá dormindo?

mcdavey 01:31

não.. acho que você também não :stuck_out_tongue_winking_eye:
annie96 01:32

não consigo.. é o vento.. parece gatos brigando. qual é a sua desculpa? :stuck_out_tongue_winking_eye:
mcdavey 01:32

estudando :frowning:
annie96 01:32

então é assim eles chamam o pornô agora? :stuck_out_tongue_winking_eye:
mcdavey 01:32

annie, que droga!!!

annie96 01:34

então não nega? :stuck_out_tongue_winking_eye:
mcdavey 01:36

eu ainda não consigo acreditar no que o johnny fez hoje!

annie96 01:36

nem eu.. aquele garoto tem problemas..

annie96 01:36

droga, o vento tá muito barulhento.. não parece normal lol

mcdavey 01:36

Sem vento aqui. Apenas chuva.

annie96 01:37

Sorte sua. eu preciso do meu sono de beleza! :stuck_out_tongue_winking_eye:
mcdavey 01:37

Com certeza, você precisa :wink:
annie96 01:38

o que? você quer dizer que eu sou

annie96 01:38

droga eu acho que ouvi passos no cascalho lá fora

mcdavey 01:39

Manda o seu pai louco ir olhar :stuck_out_tongue_winking_eye:
annie96 01:39

eu estou sozinha! a família saiu de férias lembra? eu te falei!

mcdavey 01:40

Sério? Até quando? A gente devia sair :grinning:
annie96 01:40

realmente tá soando como pegadas mas tem alguma coisa estranha nelas.. eu deveria olhar pela janela, mas minha cama tá tão quente!!

mcdavey 01:41

Tem certeza que você quer olhar pela janela quando está sozinha? E se realmente houver alguém no seu jardim, olhando pra você?

annie96 01:42

NÃO TEM GRAÇA DAVID

mcdavey 01:42

uau, criança.. tenho certeza que não é nada

annie96 01:42

vou checar, já vlt

mcdavey 01:43

Se realmente tiver algum estranho na sua vizinhança

mcdavey 01:43

Vc vai ligar pra quem?annie96 01:45

David tem alguém no jardim!!!

mcdavey 01:45

Que, sério?

annie96 01:45

SIM. dá pra ver as costas de um homem...mcdavey 01:46

O que ele tá fazendo?

annie96 01:46

ele tá... procurando algo? agachado no arbusto...

mcdavey 01:46

haha ele deve tá chapado.. provavelmente procurando as drogas :stuck_out_tongue_winking_eye:
annie96 01:48

david isso é sério! o que eu faço?

mcdavey 01:49

nada? Ele provavelmente vai sair sozinho :smile:
annie96 01:49

omg agora ele tá cavando com as próprias mãos. ele tá arruinando o jardim!

annie96 01:50

merda ele tá se virando pra cá

mcdavey 01:50

Como ele se parece?

annie96 01:51

DAVID WTF ISSO NÃO TEM GRAÇA

mcdavey 01:51

Hã??

annie96 01:51

COMO VOCÊ TÁ FAZENDO ISSO?

mcdavey 01:52

Do que você tá falando??

annie96 01:54

eu posso ver que é você! no meu jardim! como você tá digitando sem tocar no telefone? olha isso! eu tou na janela, você pode me ouvir batendo?

mcdavey 01:54

Droga annie agora você está me assustando também.. eu realmente não tou no seu jardim. Esse não sou eu.

annie96 01:54

PARE DE BRINCAR. eu posso ver seu rosto. e vc tá usando aquela jaquela estúpida de futebol que você tem tanto orgulho!

mcdavey 01:55

deve ser alguém parecido comigo.. sinceramente annie eu tou em casa. Eu não brincaria com você desse jeito.. :smile:
annie96 01:55

tem que ser algum amigo seu david.. fazendo uma pegadinha doentia.. quem mais poderia estar usando sua jaqueta?

mcdavey 01:55

tem muitas jaquelas desse tipo! meus amigos não se parecem nem um pouco comigo... você só tá comigo na sua cabeça :wink:
annie96 01:55

ele tá cavando de novo

annie96 01:55

que droga, sai logo!!!

mcdavey 01:56

annie, você tem uma arma na sua casa?

annie96 01:56

não seja idiota david. eu não poderia atirar em alguém.

mcdavey 01:57

você não precisa usar ela. apenas mostre que você a tem.

annie96 01:57

sua jaqueta não tem seu nome nas costas?

mcdavey 01:58

sim, todos do time tem seu próprio nome nela

annie96 02:00

eu tou vendo a droga do seu nome!!!

mcdavey 02:00

que

annie96 02:01

QUE BOSTA É ESSA DAVID?

mcdavey 02:04

Annie, aquela jaqueta do meu guarda-roupa...

annie96 02:04

DROGA ELE ME VIU

annie96 02:04

POR QUE ELE TÁ SORRINDO ASSIM

annie96 02:04

ELE TÁ VINDO

mcdavey 02:04

CHAMA A POLÍCIA!!!

mcdavey 02:05

ANNIE?

mcdavey 02:07

ANNIE RESPONDE

mcdavey 02:12

eu liguei pra polícia, disse que há uma tentativa de invasão em sua casa. eles disseram que estão a caminho mas vai levar cerca de meia hora

mcdavey 02:15

annie você tá aí?

annie96 02:17

aquilo está na casa. não posso falar tenho que fazer silêncio. luzes apagadas. tou num closet com uma faca. difícil escrever tremendo muito

mcdavey 02:17

droga droga aguenta aí annie a polícia vai chegar aí em 20 mins.. você sabe onde ele tá?

annie96 02:17

AQUILO. não ele. a aparência que ele tinha quando me viu David... ninguém pode se parecer com aquilo..

mcdavey 02:17

jesus cristo, aquilo sabe onde você tá?

annie96 02:17

não, eu peguei a faca quando vi ele correndo para a entrada e entrei no closet quando ouvi ele invadindo

mcdavey 02:17

ok ótimo você vai ficar bem.. um drogado não tem cérebro pra achar alguém escondido no closet.. a polícia vai chegar aí logo!

annie96 02:18

meu deus aquilo tá me chamando

annie96 02:18

ele não soa como você david

annie96 02:18

é uma voz tão profunda

annie96 02:18

preenchendo a casa

annie96 02:18

preenchendo minha cabeça

mcdavey 02:18

o que diz?

annie96 02:19

"saia daí annie."

annie96 02:19

"eu só quero olhar pra você"

annie96 02:19

fica repetindo isso de novo e de novo

annie96 02:20

eu fiquei louca, david?

annie96 02:21

é isso o que se sente?

mcdavey 02:21

só mais 10 minutos annie! aguente firme! você é forte e vai conseguir!

annie96 02:21

aquilo está subindo as escadas mas com passos tão.. devagares.. irregulares

annie96 02:21

por que aquilo se parece com você david? por que você?

mcdavey 02:21

eu não sei annie!! por favor acredite em mim

annie96 02:21

você pode fazer isso parar?

annie96 02:21

por favor, faz isso parar?

mcdavey 02:22

eu faria se pudesse eu prometo

annie96 02:22

está no final do corredor

annie96 02:22

david eu não disse nada aos meus pais quando eles saíram

annie96 02:22

eu tava ouvindo música

annie96 02:22

vai ser essa a última vez que vi eles?

mcdavey 02:23

annie

annie96 02:23

tem que ter a ver com você David.. só você pode fazer isso parar.. pense rápido..

mcdavey 02:25

EU NÃO SEI ANNIE DEUS POR FAVOR

annie96 02:25

por favor...

mcdavey 02:27

pode ser... porque eu penso muito em você

mcdavey 02:27

eu penso em você o tempo todo

annie96 02:28

então pare.

mcdavey 02:28

eu não sei como

annie96 02:29

tá arranhando as paredes e chegando perto.. por favor david...

mcdavey 02:29

eu tou tentando. tou tentando muito

annie96 02:31

Está ficando mais lento. Tente mais.

annie96 02:32

Seja lá o que você está fazendo, está funcionando.

annie96 02:34

Parou. Eu não ouço nada.

mcdavey 02:34

sério?? não saia ainda! fique escondida até a polícia chegar aí!

annie96 02:34

O que eu devo dizer a eles, já que ele foi embora?

mcdavey 02:34

TUDO annie TUDO que você me disse

annie96 02:34

Eu não sabia que você se sentia  assim por mim, David :smile:
mcdavey 02:35

estou tão feliz que isso parou

annie96 02:35

Você pode vir aqui de manhã David? Eu realmente quero te ver :smile:
mcdavey 02:36

claro annie eu vou estar aí

annie96 02:38

Ótimo! Mal posso esperar!

mcdavey 02:40

annie...

mcdavey 02:42

annie, como eu sei que essa é você?

annie96 ficou offline...

Annie Ficou Offline (CreppyPasta)



eu te vi

Lá perto de casa

Jogando bola com os seus amigos

Sai pra fora

Queria brincar

Mas lá veio o povo falar

"Menina não pode jogar, de boneca vá brincar"

Me irritei

"Porque não pode jogar? tu estás e com medo de me enfrentar"

"Medo de que? De você? Pirralha vá pra casa de boneca brincar"

Antes que eu falasse, logo ele tomou a fala

"Deixe-a jogar. O que custas uma chance dar?"

Ele falara. Me defendera. E nesse momento que um broto de sentimento surgiu em meu peito

"Jogar com menina? Esse resto de aborto? Jogar com menina não vou nunca nem morto!"

Lágrimas começaram a descer por meus

olhos. Boto os pé na carrera, a um lugar que nem eu sei, um lugar desconhecido, onde haja brincadeira.

Não sei onde estou. Não sei como aqui parei. Não sei o que fazer, não sei como voltarei.

  Caminhando pelo chão escuro de um beco vazio. Logo percebi, o quanto ali estava frio.

   "Olá pequenina...Hora esta...O que faz aqui, numa hora dessa?"

Uma voz masculina. Calma.

   "Eu fugi. Cansei dos meninos. Não me deixam brincar."

  "Entre..."

O rangir de uma porta sendo aberta é ouvido. Fiquei com ância. Estava em minha frente, a dois metros de distância.

"Venha brincar comigo...Eu serei teu eterno amigo"

Pouco pensei ate querer entrar. Voltar pra quê? Pra não poder jogar?

   Inicei os passos até a porta chegar. Entrei no mesmo, vendo a porta se fechar. Tudo escuro estava, não via nada. nenhum olhar, simplesmente nada.

"Onde estás? Quero jogar."

"Vamos jogar. Agora vamos começar..."

  "Mas Não vejo nada...Nem ao menos teu rosto."

"Disso cuidarei depois. Mas seguindo. Como parou aqui? Como foi o teu caminho?"

"Não sei. Apenas corri. Querendo sair de lá e acabei parando aqui"

"Isso com uma uma pequena tão novinha. Me diga. Quantos anos tem minha Lindinha?"

"Tenho 7. Porque a pergunta?"

"E seus pais? Sabem que aqui está?"

"Não."

"Bom. Muito bom. Minha solução aqui está. Se não sabem que está aqui. Não vem te procurar."

"Como assim?!" estava assustada, mas sem entender o que se passava.

"Oh querida... Você não vai voltar. Agora vamos começar a jogar. Com que membro quer começar?"

fonte: http://aminoapps.com/page/legiao-do-medo/1844070/inocencia-mata-poesia-da-morte-creepy

Inocência mata - Poesia da morte\Creepy

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016





Geralmente a avó começava a gritar-lhe no instante em que a porta se abria, indagando por que Ludmila se demorara no bosque ou se, por acaso, se comportara mal na escola e por isso fora castigada. Havia ocasiões em que a avó nem mesmo isso dizia, arremessando o travesseiro contra Ludmila, sempre preparada para pular de lado. Mas naquele dia foi diferente. Nenhum travesseiro foi-lhe arremessado. E também não houve gritos.

— Babushka?

Arriscando um olhar para a avó, Ludmila viu as trancas brancas espalhadas sobre o travesseiro e a coberta puxada para o alto, como a arrumara algumas horas antes. Teve vontade de dizer: “Perdoe-me pelo que fiz esta manhã, Babushka. Não queria ser uma menina má. Por favor, perdoe-me e diga alguma coisa. Por favor...”

Se a avó não falasse agora, passaria dias e dias sem dizer coisa alguma. Nem uma única palavra. Talvez só voltasse a falar depois que a neve começasse a cair e o pai e irmãos de Ludmila tivessem voltado da colheita.



Cuidadosamente, para não acordar a avó, Ludmila arrumou os rabanetes e o repolho sobre a mesa, juntamente com uma preciosa fatia de porco salgado. E depois foi pôr lenha no fogo. Babushka vivia-se queixando de estar com frio, mesmo no tempo mais quente. A cada dia, Ludmila tinha que descrever círculos maiores pelo bosque, a fim de pegar lenha. Na primavera seguinte, pediria ao pai e irmãos para deixarem uma pilha maior de lenha, antes de partirem para a colheita no início do verão. Se Babushka quisera a cabana mais quente naquele verão do que no anterior, certamente haveria de querê-la ainda mais quente no verão seguinte.

Mas, por outro lado, Ludmila já estaria então com 13 anos e seria capaz de cortar alguma lenha. Ou pelo menos os galhos mais baixos dos pinheiros e bétulas em torno da clareira. Se pudesse fazê-lo, os homens teriam o tempo necessário para escavar o poço que algum dia levaria água para dentro da cabana. Ou talvez pudessem fazer um cercado em torno da horta, a fim de que os coelhos e veados não roubassem tudo o que plantavam, como vinha acontecendo. E agora quase não havia comida para o inverno que se avizinhava. O simples pensamento deixou-a mais faminta do que o habitual. E quase já não havia rublos em casa, até que o pai voltasse.

Evitando olhar para a avó, que detestava ser surpreendida dormindo, Ludmila fritou o porco, descascou os rabanetes e cortou o repolho, pondo tudo para cozinhar no fogo, com o resto de água que ainda estava no balde. Pôs o xale e saiu de novo, atravessando a clareira na direção do riacho que corria ruidosamente sobre as pedras, quase como uma balalaica de Shura.

Se ficasse fora de casa por mais algum tempo, Babushka continuaria a dormir e haveria menos tempo para que se queixasse. De qualquer forma, era melhor ficar ali fora, pensando e contemplando as moitas e as árvores. E o cheiro era também melhor. O cheiro no interior da cabana era simplesmente horrível.

Ao voltar para casa, fingiria que acabara de chegar da escola e do armazém. A avó, como sempre, poderia gritar ou jogar-lhe o travesseiro. Depois, tomariam a sopa e iriam dormir. Dentro de alguns dias, talvez uma semana, o pai e os irmãos estariam de novo em casa. Babushka ficava mais calma sempre que eles estavam em casa. Mas era como o pai dissera, na primavera anterior:

— Se você tivesse que ficar na cama com as pernas paralíticas, minha querida Ludmila, também estaria rabugenta e implicante.

Se o pai o dissera, então era assim mesmo. Afinal, ele não era o melhor pai que existia no mundo? Ajudava-a nos deveres de casa e sempre aparecia na escola nos dias mais escuros do inverno, no momento em que Ludmila se preparava para iniciar a longa e solitária viagem de volta a casa, através dos bosques. O Camarada Varvara, o mestre-escola, dizia que cada pessoa devia produzir de acordo com sua capacidade e colher de acordo com suas necessidades. Mas a avó comia sem produzir qualquer alimento. O pai dizia que, na idade dela, isso era natural; no passado, a avó já produzira muito.

Naquele verão, quando os passarinhos e outros animais vinham devorar a horta, quando não havia forragem para alimentar o gado e os carneiros, quando não havia o que dar aos porcos e galinhas, estavam presentes todos os indícios de que os lobos voltariam a aparecer no próximo inverno, segundo o velho Nikolai, do armazém. Há três anos que ninguém da aldeia via um lobo. Mas todos sabiam que, quando as pessoas morriam de fome, os lobos sempre apareciam.

Ludmila jamais vira um lobo, mas já os ouvira uivando. E com bastante frequência. Babushka sempre dizendo que as meninas más só serviam mesmo para alimentar animais selvagens.
Ah, seria maravilhoso quando o pai e os sete irmãos voltassem! Provavelmente ainda naquela semana, dissera o velho Nikolai, sacudindo a cabeça tristemente, porque um retorno prematuro significava uma má colheita e menos comida para todos. De qualquer maneira, o pai manteria os lobos longe da cabana, como sempre o fizera antes.

Assim que todos estivessem em casa, não mais haveria as manhãs escuras e solitárias, quando Ludmila tinha que se levantar da cama em que dormia com a avó, quebrar o gelo no balde com água e cozinhar a kasha, depois de ajudar Babushka com o penico.

Havia ocasiões em que a avó reclamava tanto e a retardava de tal forma que Ludmila tinha de correr pelo bosque até a estrada e daí até a aldeia, mesmo assim chegando atrasada à sala comunal onde funcionava a escola. O Camarada Varvara sempre a castigava com deveres de casa extras, a serem feitos à luz de vela. Se a avó pelo menos pudesse produzir velas ou não demorasse tanto no penico...

E lá estava a primeira estrela. Outras despontaram um instante depois, brilhando cada vez mais intensamente, apesar da lua já estar subindo pelo ar, que naquela noite estava tão amarela quanto as bétulas durante o dia. Uma noite maravilhosa, impregnada pelos sussurros que vinham do bosque.

No ano passado, o pai e os irmãos tinham chegado um mês depois, cantando ruidosamente, vindos da aldeia, onde os caminhões tinham-nos deixado. Haviam saído correndo ao verem-na acenar, disputando para ver quem a alcançaria primeiro. Quem quer que o conseguisse, imediatamente a levantava nos braços e quase a sufocava de apertos e beijos, demorando bastante antes de largá-la para o seguinte na fila. Mas nenhum deles jamais corria para beijar a avó.

Seria ótimo se eles voltassem mais cedo este ano, como o velho Nikolai afirmava que iria acontecer. Mas seria triste por causa das pessoas que iriam morrer de fome naquele inverno, talvez até algumas de sua própria comuna.

Qual das pessoas de sua família poderia morrer?

Não o pai, que era forte e saudável. Não os irmãos, porque eram jovens e fortes. Não Babushka, que não era jovem nem saudável, mas era a mais forte de todos. Era o que o pai estava sempre dizendo. Cada vez que Babushka lhe perguntava:

— Quem é o mais forte de todos nós?

— E você, querida mãezinha.

Babushka sacudia a cabeça e sorria, mostrando as gengivas encolhidas. Os sete meninos e Ludmila riam e aclamavam. Porque o pai sempre se postava num lugar em que Babushka não podia vê-lo e piscava alegremente, para indicar o que realmente pensava.

Mas com todos eles tão fortes, restava apenas uma pessoa que era fraca. Uma menina má, que não podia cortar lenha, que ficava irritada quando Babushka se demorava no penico todas as manhas, que detestava trazer-lhe água para que se lavasse, que não gostava de arrumar a cama e ajeitar o travesseiro sob as trancas brancas.

Pobre Babushka... Era fácil demais odiá-la, era difícil recordar que estava velha e aleijada. Mas como alguém poderia amá-la, se cheirava tão mal e gritava tanto? Naquela manhã, quando Ludmila já estava atrasada para a escola, Babushka arremessara-lhe o travesseiro, alegando que estava duro. Ludmila desatara a chorar. Jogara o travesseiro contra a avó, vendo-o cair sobre o rosto encarquilhado. Minutos depois estava correndo a caminho da escola, o mais depressa que podia, chorando sem parar.

Mais estrelas. Ao luar, as sombras iam ficando cada vez mais difusas e compridas. Ludmila afastou-se do córrego e atravessou a clareira até a porta da cabana. Sentou-se no balde virado ao contrário, sem querer entrar.

Um grito ou um travesseiro em sua cara? Uma queixa ou uma exigência? O que aconteceria se reagisse ao grito? Ou se tornasse a jogar o travesseiro em Babushka? E se ela não entrasse, ficando ali fora, à espera do pai e dos irmãos?

Quando eles chegassem Ludmila gostaria mesmo de ficar dentro de casa. A cabana estaria então ressoando de conversas e risadas. E de noite
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ouviria o violino de Oleg e a balalaica de Shura, sob o acompanhamento das palmas ritmadas do pai. Rodio, Vukuly e Kyril dançariam um gopak. E depois Ludmila valsaria com todos eles, contando cuidadosamente para que não brigassem para decidir quem seria o próximo. Não havia música e dança todas as noites, porque, uma vez por semana, os homens iam até a aldeia, para beber cerveja e conversar com os amigos.

Se ela morresse de fome naquele inverno, com quem eles iriam dançar? Ludmila assoou o nariz com a ponta do xale. Morrer talvez não fosse tão ruim assim. No céu, ela descobriria pessoalmente como a mãe era. É verdade que o Camarada Varvara dissera que não existia o paraíso. Ela contara a história ao pai, que comentara:

— É bem possível. Mas, seja como for, sua mãe era um anjo.

Só que o pai não conseguia recordar-se se ela era grande ou pequena, feia ou bonita. Sabia apenas que tinha sido a mulher certa para ele e jamais descobrira outra igual.

Babushka dizia que nenhuma mulher, muito menos a segunda esposa do filho, merecia tal devoção. Além do mais, ele não precisava de uma segunda esposa, já tendo sete filhos homens. O que a segunda esposa poderia fazer a não ser produzir outra menina inútil? Era ótimo que não tivesse havido outra filha além de Ludmila. A própria Ludmila já era demais, tão faminta que era. Às vezes, quando Babushka começava a falar sobre meninas fracas, meninas más, meninas famintas, Ludmila sentia vontade de machucá-la.

Dois anos atrás, quando Babushka se levantava pela manhã da cama que partilhava com Ludmila, sofrera subitamente uma queda. O pai atravessara correndo a cortina que dividia a cabana. Ludmila estava tão assustada que se pusera a chupar o polegar, coisa que há anos não fazia. Babushka estava de olhos fechados e respirava tão ruidosamente como se estivesse roncando. Quando o pai se ajoelhara ao lado dela e começara a chorar, Ludmila desatara também a chorar.

Mas a avó finalmente abrira os olhos, revirando-os. E mais algum tempo se passara antes que resmungasse:

— Ludmila... Ludmila... ela me empurrou...

Um médico viera examiná-la, para determinar sua remoção para um hospital. Dissera que Babushka sofrera um derrame e nunca mais voltaria a andar. E acrescentara que havia poucos leitos para os vivos, muito menos para os agonizantes. Alegara que não havia razão para transferir Babushka para o hospital. Ela poderia morrer a qualquer momento, de um choque súbito ou simplesmente pelo coração parar. Ou podia sobreviver por muitos anos. Mas era justamente esse o problema. Eles estavam mais preocupados com aqueles que podiam recuperar-se e voltar a produzir.

Ludmila pensara em perguntar: e o que vai acontecer comigo? Os verões já eram terríveis. E se a avó tivesse de ficar na cama, o próximo verão seria ainda mais longo e difícil, com os homens longe de casa.

Dois anos... Um tempo interminável. E jamais ouvira um “obrigado” ou um “por favor” de Babushka. Só fazia gritar e jogar o travesseiro nela. No inverno passado, o pai ficara furioso por causa disso:

— Já chega! Está sendo rude demais com Ludmila. Ela está trabalhando mais do que você poderá voltar a fazê-lo.

Babushka ficara tão ofendida que mal falara durante todo o inverno. E passara a beliscá-la durante a noite, os dedos cruéis encontrando a perna, o braço ou uma orelha de Ludmila. Ela beliscava e beliscava até que Ludmila não conseguia mais aguentar. Empurrava a avó para longe. Mas a velha nunca mais caíra da cama.

Ludmila suspirou e pegou o balde. Abriu a porta e hesitou por um instante, esperando que o travesseiro voasse em sua direção. Mas a avó continuava exatamente como a deixara pela manhã. Com o travesseiro ainda comprimido sobre o seu rosto.

Cuidadosamente, Ludmila largou o balde no chão. Tirou a panela do fogo e serviu sopa em sua tigela. Pegou uma colher e tomou tudo, saboreando lentamente. Depois, sem olhar para a cama, levantou-se e serviu-se do resto da sopa,tomando tudo tranquilamente.


Ludmila

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Este local é dedicado aos frequentadores do blog(leitores no caso)
Aqui serão postados desenhos de creepypastas(e na pagina do facebook também)dos fãs.
Só poderão ser postados desenhos de própria autoria.
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Os Desenhos dos donos do blog,estarão postados em álbuns da página,e os dos fãns em outro albúm separado(para não houver engano,ou bagunça).
lembrando que sua arte tem que estar com  o nome do blog !




fã arts



Quando a norte-americana Eletronics Company Empire resolveu montar sua filial brasileira em nossa cidade, eu era um jovem de vinte e cinco anos, havia me formado em informática na universidade local e ansiava por encontrar um emprego seguro que influenciasse minha namorada a decidir-se favoravelmente ao meu pedido de casamento. Samira estava relutante a respeito do matrimônio simplesmente porque não tínhamos estabilidade financeira, ela trabalhava como tradutora free-lance e seu pai era um homem amargurado, abandonado pela esposa e que via a vida se esvaindo enquanto media areia num depósito de material de construção; eu era um caipira órfão que me sustentava com as parcas rendas de uma criação de cabras, galinhas e algumas vacas leiteiras de um sítio recebido de herança de meus pais. Um sítio que era considerado pela população como lugar amaldiçoado – a cem metros da única casa da propriedade, uma edificação de dois andares, velha, de madeira, grande e sombria, havia uma imensa árvore centenária, esgalhada, com a terrível fama de atrair pessoas desesperadas.

Várias vezes por ano alguém cingia uma corda no pescoço e se dependurava nos seus galhos robustos, rugosos e fortes. Eu, que tinha meu quarto no segundo andar, estava tão acostumado com a violência daquelas mortes que nem dava muita importância – desde pequeno acordava muitas vezes com o vento uivando de maneira solene, ia à janela e observava um corpo balançando solitariamente, a coisa era até poética quando havia uma lua cheia no céu parcialmente nublado. Meus pais – quando eram vivos – ligavam para a polícia. Depois que eles morreram num acidente com o nosso fordinho de antanho, eu passei a encarregar-me de avisar as autoridades.
Com o tempo, os suicídios tornaram-se uma rotina tão grande que os agentes da perícia médica deixaram de vir com os policiais para atender aos chamados. Os meganhas retiravam o cadáver da forca, punham-no dentro do camburão e zarpavam. Já não enchiam o meu saco exigindo depoimentos. O morto geralmente era um viciado em tóxico, um endividado em jogos, uma jovem desiludida, um arruinado nos negócios – gente desse naipe. De vez em quando um malaco qualquer desistia do suicídio na última hora, ia embora e a corda com seu laço lúgubre ficava pendurada num dos galhos da árvore. Da última vez contei as forcas ainda virgens balançando ao sabor dos ventos noturnos – haviam quinze desses arranjos.
***
Samira odiava meu pedaço de terra, vivia insistindo para que eu vendesse tudo, comprasse um apartamentozinho na cidade, arranjasse um emprego decente, que me tornasse uma pessoa normal, comum, um cidadão que no seio da sociedade não fosse olhado como aberração. A instalação da empresa norte-americana em nosso município pareceu-me uma bênção do céu. Assim, contei a Samira das minhas pretensões empregatícias na Eletronics Company Empire e, claro está, ela vibrou de entusiasmo. Fiz uma ficha na empresa, uma semana depois fui chamado para a entrevista. Foi aí que o bicho pegou – eu teria que falar com uma psicóloga da firma e, ainda, com o diretor-geral, um gringo chamado Victor Roddick, e o cara tinha dificuldade em dizer até mesmo bom dia em português. Quanto a mim, conseguia ler e escrever em inglês com desenvoltura, mas não entendia os fonemas e era incapaz de pronunciar a mais corriqueira das frases. Minha língua dava nó dentro da boca, eu balbuciava coisas ininteligíveis que provocavam risos em qualquer um que estivesse por perto.
– Vou me informar, Ditão, se posso servir de intérprete – disse Samira. Ora, como é que eu não tinha pensado naquilo? Samira falava inglês corretamente e não dava vexame quando se aventurava no árabe, língua dos ancestrais da mãe. Minha garota foi aos escritórios da empresa, passou por várias salas conversando com subalternos até chegar ao diretor Victor Roddick – o que não consegue uma jovem bela, inteligente e determinada? O homem todo poderoso mandou que Samira me levasse à sua presença.
No dia e hora determinados, Samira foi ao salão de beleza e deu uma encaracolada no seu longo cabelo negro, maquilou-se, colocou um vestido vermelho decotado generosamente e com a barra um palmo acima dos joelhos, calçou sapatos salto-agulha e lá fomos nós para a entrevista, eu com o braço em torno de seus ombros, todo orgulhoso de namorar a garota que era, sem dúvida, a mais bela da cidade. Sentia-me capaz de mover o mundo com um peteleco do dedo mindinho. Samira, pequenina perto dos meus quase dois metros de altura e cento e dez quilos de músculos, parecia uma avezinha implume protegida sob as asas do condor-rei. O diretor Victor Roddick recebeu-nos à porta de seu gabinete de trabalho, conduziu-nos para duas poltronas postadas à frente da grande escrivaninha de madeira maciça. Roddick me surpreendeu logo de cara. Não era semelhante à imagem que eu fazia de um dirigente de uma empresa do porte da Eletronics Company Empire. Se não tivesse todos os membros em tamanhos normais, poderia facilmente ser chamado de anão. Não devia ter mais que um metro e meio de altura, excessivamente magro, cabelos totalmente brancos, a pele do rosto parecia um pergaminho milenar cheio de dobras, vincos e ranhuras. Sua idade poderia variar entre os setenta e noventa anos.
O diretor sentou-se por detrás da mesa descomunal e ficou nos olhando – minto, ficou olhando Samira, ela cruzara as pernas e um bom pedaço do seu magnífico par de coxas magnetizava os olhos pequenos, cinza, úmidos do gringo. Os dois começaram a conversar, Samira ria com todos os dentes, passava a mão pelos cabelos, se esmerava na arte da sedução, muito coquete, num atrevimento que só; o homem todo simpaticão parecia estar sacando do repertório americano engraçadíssimas piadas de salão, aquelas anedotas execráveis que tantas vezes já vimos em filmes de comédia. E foi assim. Por mais de meia hora os dois trocaram impressões, falavam nisso e naquilo sem que eu entendesse pissiricas. Só fui abrir a boca – para dizer um tímido até logo ao homem – depois que Samira e Victor Roddick levantaram-se de seus assentos e deram um formidável aperto de mão. Apenas quando caminhávamos pelos corredores do prédio administrativo é que Samira dignou-se a me dirigir a palavra.
– Pronto, Ditão, o emprego é seu. E se prepare para mais uma boa notícia, eu também fui contratada. Vou ser secretária do Dr. Victor Roddick. Não é a maravilha das maravilhas? Agora, neste momento, o nosso diretor já deve estar telefonando para o Departamento de Pessoal. A gente tá indo pra lá assinar a papelada.
***
Fui designado para o setor de montagem de softwares e uma semana após o diretor Victor Roddick me convocou para uma reunião em sua sala. Com Samira servindo como intérprete, fiquei sabendo que seria indicado para o cargo de supervisor de serviços gerais. Mas para tanto eu precisava fazer um estágio de seis meses na matriz da Eletronics Company Empire, em Detroit. Fiquei de pensar no caso, na verdade não estava disposto a ir para uma terra estrangeira, tinha consciência de ser um caipira de difícil adaptação. Naquela noite, nos lençóis do Motel Alameda, Samira convenceu-me que eu não devia perder a chance de subir hierarquicamente dentro da empresa. Tirei meu passaporte e quinze dias depois viajei de avião para a cidade considerada por muitos americanos como a mais violenta dos Estados Unidos. Não vi nenhum tipo de violência, principalmente porque me entoquei no hotel reservado pela empresa. Era do trabalho para casa, durante seis meses aprendi o que tinha que aprender na matriz da Eletronic Company Empire – inclusive a falar o idioma inglês – e não dei nem mesmo um passeio pelo centro da cidade. Eu era só tristeza, saudades de Samira, dos meus animais de criação que ficaram sob os cuidados de um primo beberrão, do meu pedacinho de terra improdutiva e até mesmo da árvore centenária com seus galhos retorcidos cheios de forcas penduradas como se fossem frutas.
Retornei do estágio em Detroit e soube de supetão que Samira estava morando numa cobertura duplex da Avenida Higienópolis, região central da cidade. Em companhia do velhinho mais para anão, o diretor Victor Roddick. O pai de Samira, outrora o homem mais amargurado que eu já tinha conhecido, não era mais o empregadinho no depósito de materiais de construção – com os bolsos repletos de dólares americanos, havia adquirido o estabelecimento comercial, esbanjava sorrisos e, montado num carro recém-adquirido, novinho em folha, era o cara da vez nos prostíbulos disfarçados de casas de massagem. As surpresas não pararam por aí: assim que reassumi meu cargo de supervisor geral da Eletronics Company Empire, fui chamado ao Departamento de Pessoal, lá recebi de uma funcionária despida de sorrisos um papel assinado pelo diretor Victor Roddick – eu estava demitido. E mais: por justa causa. O documento estava tão bem redigido, tão bem articulado, apontava tantas desqualificações de meu caráter e tantas falhas funcionais na execução das minhas tarefas operárias que nem pensei em mover uma ação trabalhista. Seria o meu advogadinho – indicado pelo Estado – contra o batalhão de jurisconsultos amealhados a peso de ouro pela maldita empresa.
Pobre é assim, quando é fodido pelos poderosos, a coisa tende a estraçalhar todas as pregas do fiofó. Desanimado, desiludido, massacrado pelas injustiças, com o rabo entre as pernas voltei para o meu sitiozinho, para a companhia de minhas cabras, galinhas e vaquinhas leiteiras.
***
Passaram-se cinco anos, nesse tempo arranjei uma amante chamada Eunice, uma sitiante viúva, ainda jovem, que me recebia em sua casa e nunca pôs os pés em minhas terras; durante esses anos melhorei um pouquinho minha condição financeira após investir na criação de codornas e coelhos e, também, passei a ter visões com os enforcados na minha árvore, todos eles, desde o tempo em que comecei a me conhecer por gente. Acordava de noite com os ventos uivando, olhava pela janela e lá estavam aquelas criaturas desesperadas balançando nos galhos rijos e grossos. Uma árvore carregada de cadáveres esbatidos pela claridade lunar. Nunca consegui esquecer Samira, não porque ainda estivesse apaixonado, mas por causa da tristeza provocada pela sua traição. Porém, não odiava a garota, na verdade tinha até uma ponta de pena por vê-la, graças à ambição desmedida, desperdiçando os melhores anos de sua vida em companhia de um velhinho que poderia ser seu avô – que digo? – seu bisavô. Meu ódio se concentrava em Victor Roddick, o grandíssimo canalha, era tanto ódio que sobrava animosidade para os demais diretores da Eletronics Company Empire.
***
Um dia recebi com grande surpresa um enviado da diretoria da empresa. O sujeito trazia uma pasta com muitos dólares e a proposta de aluguel por uma noite da minha propriedade. Explicou-me que os chefões tinham ouvido falar da Árvore dos Enforcados, se divertiram muito com os comentários supersticiosos envolvendo fantasmas e outras fantasias monstruosas e, por puro gozo, queriam fazer uma festa à grande em comemoração ao Halloween, uma festa bem ali, sob minha árvore amaldiçoada. Eu não sabia o que significava Halloween, o carinha me falou longamente a respeito da tradição americana ao dia consagrado às bruxas, era tanta besteira junta que acabei rindo e topei a parada.
No dia da festa de Halloween fui para a cidade, comprei algumas garrafas de cachaça, conversei longamente com os conhecidos a respeito da maluquice dos gringos, demos muitas risadas dos panacas, avisei a todos que estaria em casa da minha amante, íamos fazer quentão, quem quisesse que fosse lá tomar uns tragos. Comprei brinquedos para as três crianças pequenas de Eunice e fui para o sítio dela. Na manhã seguinte fui acordado por três policiais que me informaram: o diretor Victor Roddick, da Eletronics Company Empire, fora encontrado devidamente pendurado num galho da Árvore dos Enforcados e eu, claro, era o principal suspeito de um possível assassinato. Eu tinha meu álibi, sólido como rocha. Ali estava Eunice, minha companheira, para confirmar que passáramos a noite juntos, tomando quentão e comendo broas de milho. Havia também as crianças, elas tinham ido dormir tarde da noite e poderiam testemunhar a meu favor. Sim senhor, meu álibi era incontestável.

O que ninguém sabia é que, se Eunice bebeu quentão como um gambá, eu mal molhei a boca com o preparado alcoólico. Por volta das dez horas da noite colocamos as crianças na cama, às onze e meia Eunice dormia esparramada no sofá, embriagada. À meia-noite fiz o percurso entre o sítio dela e o meu numa velocidade de maratonista e, por uma sorte absurda, encontrei a cúpula diretiva da empresa em final de festa, havia litros de uísque, vodca e gim espalhados em torno da Árvore dos Enforcados, os gringos arrastavam pelo chão, uns vomitando, outros já inconscientes. Esperei até que todos mergulhassem nas brumas alcoólicas, depois ajuntei o corpinho minúsculo de Victor Roddick pela cintura, joguei-o nos ombros e subi a árvore com a categoria e agilidade de um felino. Para minha surpresa, Roddick saiu da inconsciência e ficou sóbrio num piscar de olhos. Começou a se debater e a gritar pedindo socorro. Não adiantava nada, seus amigos chafurdavam no coma alcoólico, não iriam ajudá-lo de jeito nenhum. Ajeitei uma das forcas no pescocinho fino do diretor, frágil como uma haste de flor.
– My God! – ele gemeu.
– Sem my God, meu chapa – eu disse. E soltei o gringo no espaço. Desci da árvore e observei o sujeitinho com os olhos esbugalhados e a língua de fora. Um belo espetáculo, sem dúvida. Uma visão maravilhosa. Em seguida voltei para o sítio de Eunice, bebi alguns copos de pinga pura e tratei de acordar minha amásia com xícaras e xícaras de café, rimos da bebedeira, dançamos pela sala, trôpegos, bêbados, felizes, transamos alucinadamente e por fim dormimos.
Pelo menos até agora as autoridades não descobriram o que aconteceu realmente na festa de Halloween dos gringos. Da minha parte, daqui da janela do segundo andar de minha enorme casa de madeira, frequentemente vejo o espectro do diretor Victor Roddick, entre os demais suicidas de outras épocas, balançando suavemente na ponta da corda, açoitado pelo vento noturno e palidamente banhado pelos raios da lua. É um êxtase.


J. Athayde Paula


fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/a-arvore-dos-enforcados.htm

A Árvore Dos Enforcados